As mentiras que as crianças contam

24 de maio de 2016 , In: Desabafos, Relatos , With: No Comments
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De vez em quando sou testada enquanto mãe. Sempre gostei desses desafios, mas eles vêm aumentando e não raro tenho a visita da insegurança. O melhor caminho a seguir nunca está com uma plaquinha indicativa, por tanto, intuição e bom senso são os meus companheiros nessa jornada ininterrupta. Noutro dia me deparei com um novo desafio: as mentiras que as crianças contam. Ou: até que ponto vai a imaginação de uma criança a relatar um (suposto) fato.

Os meus filhos sempre foram o meu porto seguro. Desenvolvemos uma relação de profundo amor, compreensão e carinho. São as pessoas mais importantes da minha vida e têm a minha total confiança. Nunca, num primeiro momento, passa pela minha cabeça que eles estão mentido. Sempre dou o benefício do crédito até que o sinal de desconfiança comece a apitar.  Foi assim quando o meu filho chegou da escola com o ombro machucado, dizendo que a professora o tinha agredido e que ele nunca mais queria voltar para a escola porque tinha medo dela. Tomei um susto e quis saber mais: sentei o meu filho no sofá, tirei a blusa dele (me deparei com uma marca vermelha grande e alguns aranhões).

– Prossiga, filho. 

Ele continuou dizendo que estava na escola assistindo um filminho e a professora achou que ele estava fazendo bagunça e o segurou muito forte pelo ombro, chegando a tirar um dos pés do chão, conduzindo-o para a cadeira de castigo. Fiquei atordoada. Me faltou ar…

– Filho, explique isso direitinho, por favor. 
– Eu já disse, mamãe… E doeu muito… E eu chorei… Não quero mais voltar para a escola!

Algo estava muito errado para o tamanho da mágoa dele. Chamei a irmã gêmea dele (que estuda na mesma classe).

– Filha, o que aconteceu hoje com o seu irmão? 
– Foi exatamente o que ele falou, mamãe: ele estava vendo filme e a professora machucou ele no ombro e ele chorou um pouquinho.

Pronto, confirmada a versão!…
O que VOCÊ, que nos lê agora, faria?

Bem, eu fui tomada pela raiva. Tirei uma foto do ombro do meu filho e enviei para o grupo de pais/mães da turma da escola para comunicar o ocorrido. Imediatamente, outros pais se sensibilizaram, contra e a favor da professora. (Quando acontece com o filho dos outros, fica muito mais fácil enxergar a situação de forma serena. Mas, para mim, naquele exato momento não foi bem assim). Quem me conhece sabe que sou bastante calma e que prezo muito pelo meu equilíbrio emocional. Pois bem, tentei me reencontrar com ele, respirei fundo e marquei uma reunião na escola com a diretora para aquele mesmo dia.

Chegando lá, fui recebida pela diretora. Reparei em cada expressão do rosto dela à medida que eu ia contando a versão do meu filho. Imaginei que aquele olhar de frieza fosse resultado de longos anos ouvindo reclamações dos pais e mães de alunos. Entendi. Mas eu estava ali, fragilizada emocionalmente, falando sobre a pessoa mais importante da minha vida. E, no alto da minha soberba, queria um tratamento acolhedor e solidário ao momento que estávamos passando. Saí da reunião achando que, para a escola, eu poderia ser apenas uma mãe desequilibrada.

– Apuramos internamente, conversamos com a professora e ela disse que não teve nenhum contato físico com o seu filho. Disse a diretora.

Ok, era só isso. Então o meu filho estava mentindo. Fui colocada à prova. Voltei para casa e chamei o meu filho para conversar novamente. Ele não só reafirmou a versão dele, como também executou, espontaneamente,  o “toque da professora” nos meus ombros, dando riqueza de detalhes. E agora? Eu me perguntava assustada. Em quem devo acreditar? Como agir?!

Na manhã do dia seguinte recebo uma ligação da escola me convidando para que eu fosse lá conversar com duas coordenadoras e com a própria professora. Falei tudo que eu precisava falar, com o máximo de sinceridade e com um cuidado enorme para não cometer excessos. A reunião foi boa. Tive o acolhimento que esperava ter tido na primeira reunião. A versão anterior da escola foi sustentada, com o acréscimo de um novo depoimento do meu filho dizendo que tinha se confundido, “inocentando” a professora e confirmado a versão da escola que não tinha tido nenhum contato físico.

Saí da reunião mais relaxada em relação à escola, só que apreensiva em relação ao meu filho. Por que ele inventou essa história toda, meu Deus? Voltei a falar com ele, já dizendo que tinha sido informada pela escola sobre o novo depoimento dele. Ele, finalmente, disse que o machucado no ombro não tinha sido a professora e sim uma brincadeira com um amiguinho da turma, mas insistiu que a professora tinha apertado o ombro dele.

Fiquei atônita, surpresa com a história e a proporção que ela tinha atingido. Então era mentira? Fiquei perdida. Precisava aprender a lidar com isso! Será que eu não vou poder mais confiar no que os meus filhos contam? Eu me perguntava isso ao mesmo tempo que eu não considerava a hipótese de ignorar os relatos dos meus filhos. Então, qual é a medida? Desafio lançado e eu fui procurar direcionamentos.

Passei horas lendo tudo que tive acesso sobre o tema. Entendi que as crianças, assim como os adultos, mentem por diversos motivos. A criança pode contar uma mentira, na maioria das vezes por medo da autoridade (para evitar um castigo por ter feito algo errado), para contar vantagem frente a algum amigo ou proteger sua própria imagem (diz que é o melhor da classe, corre mais rápido, apareceu na televisão etc) mesmo sabendo que isso não é real, mas precisa se autoafirmar, ou ainda, por imitação de modelos como outros amigos ou os próprios pais. Estudos realizados mostram que é normal mentir na infância e na fase adulta (quando contamos cerca de sete mentiras por dia. A maioria delas, pequena. Por exemplo, quando uma amiga pergunta se você gostou do vestido dela, mesmo achando a cor feia, você diz que gostou, para não a ofender). Ou seja se mentir é NORMAL (o que não é normal é mentir cronicamente), a mentira na infância não é uma questão de (falta) caráter.

Os conceitos de moral, ética e consequência estão sendo fortemente construídos, sob influência dos pais, dos amigos, da escola, da televisão e que qualquer outro veículo de comunicação que tenham acesso. O tempo e as experiências, bem como os exemplos, vão construindo parâmetros mais complexos de discernimento nas crianças para que elas possam absorver um entendimento valorado dessas situações. Ao cinco anos de idade isso está em pleno processo de elaboração. Por isso, eu enquanto mãe, não posso julgar o caráter do meu filho nessa idade; muito menos tolir a sua capacidade criativa no processo de percepção da vida. Devo intensificar os conceitos de valores e estar muito junto, orientando e acompanhando. Também devo me acalmar. Essa não será a única vez. A nossa vida juntos só está começando. O relacionamento com a vida escolar deles é tão iniciante quanto a minha dúvida.

Já aprendi que nem tudo que os meus filhos contam é verdade, que precisamos aprofundar os fatos antes de sermos tomados pela raiva. É preciso ouvir com atenção, ter serenidade, se manter ao lado dos nossos filhos e, paralelamente, investigar sem juízo de valor, pois queixas frequentes sobre a escola, amigos e cuidadores podem representar algo mais sério que não podemos ignorar. Vou dizer pra vocês que não é fácil não… Estou amadurecendo isso e tomando consciência dos desafios constantes que os filhos impõem. Busquei na internet e nos livros respostas de como agir numa situação dessa onde você descobre que o seu filho está mentindo, após você ter se exposto (e se indisposto) com pessoas envolvidas no caso, como no meu que eu já tinha ido na escola reclamar e já tinha colocado o fato no grupo de pais. Confesso que morri de constrangimento, fiquei chateada e agi contrariando todas as recomendações posteriormente pesquisadas.

Bem, o que eu fiz não deve ser feito segundo os especialistas: eu conversei exaustivamente sobre o assunto com o meu filho, ameacei tirar todos os brinquedos que ele mais gosta se a mentira voltasse a acontecer e, em alguns momentos, cheguei a falar em alto e bom som que não iria admitir mais mentiras. Segundo Ceres de Araújo, autora do livro “Pais que educam”, no caso de dúvida sobre a veracidade de algum relato: não devemos insistir no assunto (a história contada horas, ou dias depois pode revelar versões a serem comparadas pelo adulto); ao invés de chamar a criança de mentirosa, devemos explicar as consequências negativas de uma mentira com exemplos práticos, deixando claro porque é errado mentir e/ou prejudicar alguém; não devemos gritar, pressionar ou submeter a criança a interrogatórios ostensivos e extensos; e, na hora de chamar a atenção, devemos ter cuidado: se omissão diante da mentira é ruim, o autoritarismo puro também não contribui muito para a educação, uma vez que não exige uma autorreflexão e pode, entre outras coisas, inibir a imaginação, que é sempre necessária para um desenvolvimento saudável do cérebro. Devemos ser firmes, mas demonstrando empatia, mostrando que compreendemos que a criança não teve a intenção de fazer algo ruim e explicando que às vezes nossas atitudes podem ser ruins para outras pessoas e que é por isso que devemos pensar antes de agir ou falar.

Jardini Mader, psicólogo infantil do Hospital Pequeno Príncipe, explica que os pais precisam entender as motivações da mentira antes de partir para os castigos e proibições como punição. “Dificilmente a criança age para magoar os pais, geralmente está mais ligada à pressões sociais. E é preciso que haja a autoafirmação da criança, isso também faz parte do desenvolvimento dela. Os pais precisam compreender que isso é importante. Chamar a atenção é fundamental, mas não sem antes compreender a gravidade da mentira, as motivações e o contexto que levou em àquela história inventada ”.

O período da manhã passou num segundo enquanto eu devorava as informações sobre as mentiras na infância. Já era o horário de pegar as crianças na escola e eu já estava me sentindo melhor preparada sobre o assunto. Chegando na escola, dei um abraço apertado no meu filho e falei:

– Filho, a mamãe entende que você inventou aquela mentira que a professora tinha te machucado com medo da mamãe brigar com você por você ter machucado o ombro fazendo bagunça com o coleguinha na sala. Não foi? Filho, não precisava ter inventado tudo aquilo. A mamãe ia entender e conversar com você sobre o desconforto que você estava causando em outros coleguinhas que queriam assistir a aula. E só. Não precisa ter medo da mamãe. A mamãe te ama acima de tudo! Errar é normal, não tem problema se você contar a verdade. Pode me contar tudo. A mamãe ficou chateada porque você mentiu – e não porque você brincou com o coleguinha. Se você tivesse me contado da brincadeira do coleguinha, a mamãe não ficaria brava, pelo contrario, eu focaria orgulhosa por você ter contato a verdade. Vamos fazer um combinado: se vocês falarem a verdade, a mamãe não vai ficar brava e vai ficar orgulhosa por vocês terem dito a verdade e juntos vamos pensar nas consequências. Não importa o que vocês fizeram, a verdade é sempre o melhor caminho, ok?

Eles concordaram aliviados. Me encheram de beijos e carinhos.

Me desculpem os teóricos e especialistas, agradeço toda a ajuda de sempre, sei que faço muitas coisas erradas nessa minha vida de mãe de gêmeos de primeira viagem. Certamente, não cometeria os mesmos erros. Mas, como não tenho tempo para passar isso à limpo, vou vivendo com os meus rascunhos muitas vezes rasurados, tentando consertar alguns erros de percurso. Não é fácil o caminho, a bússola não funciona nas rotas da maternidade, mas é um caminho incrível, cheio de mistérios, desafios, angústias e alegrias. Essa é a mais pura verdade :).

Olívia Berni
Colunista Ciranda Contada
Mães de Gêmeos 

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Nascida em Itabuna, signo de Peixes. Formada em Relações Públicas, mas Educadora de construção e coração. Amo minha família e minha ocupação favorita é SER MÃE. Amo os livros! Sonho em ter uma Livraria ou uma ONG para animais abandonados. Cheia de ideias, criatividade não me falta, sou exagerada, falo muito. Faço meditação para conversar com Deus!

 

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